Dia Nublado

O dia estava exatamente como o espírito dele. Cinza, completamente nublado e chuvoso. Cinza e nublado porque as esperanças se esvaíam junto com o vento gelado, e chuvoso porque lágrimas caíam de sua alma sem parar. Havia perdido uma das coisas mais preciosas para ele, e sabia que grande parte da culpa era sua. Talvez por não ter tentado, talvez por não o ter feito suficientemente, talvez por simplesmente não ter conseguido, mas a culpa continuava sendo sua, e isso o corroía. Queria voltar atrás e fazer tudo diferente, mas agora já era tarde demais, sentia seu coração se dividindo em dois e usava toda a sua força para tentar mantê-lo único, mas era impossível. Precisava dela. Tinha certeza absoluta de que era um erro ficarem separados, mas também sabia que não ficariam juntos, por escolha dela, não ficariam juntos, e isso machucava como nada conseguia machucar. Ele não valia a pena para ela, e ela era uma das únicas coisas que valia a pena para ele.

As palavras

E ela se sentou com caderno e caneta em mãos, sentou e esperou que alguma idéia aparecesse, mas aparentemente aquele não era um dia bom para as benditas idéias. Da ponta de sua caneta, não saíam  mais do que palavras sem sentido, e ela não conseguia fazer com que as palavras formassem frases, e quando conseguia as frases, os parágrafos eram interrompidos pela metade. Tudo isso que no fim acabou rabiscado e amassado no chão em sua volta. Ela queria escrever para esquecer das coisas, queria escrever para provocar reações, queria escrever para desabafar e nada lhe ocorria. A única coisa em que conseguia se concentrar era na falta que sentiria dele, falta essa que só aumentaria e aumentaria com o passar do tempo, e que talvez um dia amenizasse, mas sempre estaria lá para atormentá-la. E assim ela acabou descobrindo, que o motivo pelo qual não conseguia escrever era que as palavras não eram boas o suficiente para expressar tudo o que estava sentindo, seu significado não era forte o bastante, e nunca seria. Foi nesse dia que ela descobriu que as suas melhores amigas não poderiam ajudá-la sempre que precisasse, às vezes elas simplesmente não saberiam o que dizer, mas que sempre estariam lá, tentando o seu máximo para descrever suas emoções e expô-las aos outros, mas nem sempre fariam isso com perfeição. Foi nesse dia que ela percebeu que nem as suas tão adoradas palavras eram perfeitas, do jeito que ela sempre imaginou.


//Brighter - Paramore

Música

Ele andava pela rua com seus fones de ouvido, como sempre, sem ouvir nada ao seu redor, só sentindo a vibração de cada nota, de cada timbre que magicamente se encaixavam e faziam aqueles sons maravilhosos. Arrepiava-se a cada nota, sentia o coração acelerar a cada batida, e a acalmar a cada parada. Os versos enchiam seus olhos de lágrimas, era impressionante como o entendiam, mesmo sem saber quem ele era.
Mais impressionante ainda era que as músicas, mesmo sendo escolhidas aleatoriamente sempre se encaixavam com o que sentia no momento. E ele não cansava de se surpreender com a astúcia do seu querido iPod.
Todos que o viam na rua pensavam que era maluco, ou no mínimo, estranho. Ele cantava e dançava ao som de suas músicas preferidas, sem nem perceber que o estavam observando. Só conseguia perceber a música, que entrava pelos seus ouvidos e o completava, preenchendo todos os vazios de seu corpo. Era daquilo que ele precisava. Mais uma vez a música o completava, só ela era capaz de fazê-lo completamente.

Decisão tomada


Ela permanecia de olhos fechados, pensava na difícil decisão que precisava tomar sem conseguir optar por nenhuma das opções. De repente uma repentina vontade de abrir os olhos e ver aquela encruzilhada ali na sua frente novamente encheu todo o seu corpo, e mesmo achando uma idéia absurda, completamente sem propósito, ela o fez e eis que a decisão já havia sido tomada.
A tal encruzilhada havia desaparecido completamente, os dois caminhos haviam se fundido em um e naquele instante ela se viu sem outra opção a não ser a que tinham pré-determinado para ela. Achou injusto, se sentiu sem poder sob a sua própria vida, se sentiu manipulada, mas agora já não havia mais outro caminho a seguir.
Foi por ele que continuou a caminhar, sem idéia de onde a levaria e inconformada com o fato de que, se houvessem pedras ou buracos nele, ela teria sido obrigada a ultrapassá-los, mas continuou e continuou.
Não adiantava se lamentar, não adiantava chorar ou desejar que fosse de outra forma. Agora teria que ser por ali e por ali seria. Ao menos ela sabia que algumas pessoas sempre estariam ali, caminhando ao seu lado.

Silêncio

Ela estava sentada à beira de um lago, um dos seus refúgios preferidos, o lugar onde gostava de ir quando precisava de si mesma. Não pensava em nada, e na realidade estava pensando em tudo, com o vento batendo no rosto e aquele cheiro de chuva chegando. De repente ela ouve passos atrás de si e se dá conta de que ele está vindo em sua direção. Mil coisas se passam em sua cabeça, desde o sonho mais fantástico à idéia mais pessimista, mas ela não consegue decidir o que fazer e fica ali parada, sem reação, esperando.
Ele se senta ao seu lado em completo silêncio e os dois ficam ali, sem trocar uma palavra ou olhar, como se fossem completos estranhos. De repente sentem gotas de água molhando seus rostos, e a chuva, que tanto demorara a cair, parecia decidida a se mostrar naquele momento, mas os dois permaneceram sentados, imóveis e mudos. Depois de muito tempo a chuva começa a diminuir e dá sinais de que cederá em pouco tempo.
Os dois se olham simultâneamente, ele ameaça abrir os lábios para falar algo, mas ela não permite. E os dois permanecem ali, se olhando, pensando exatamente a mesma coisa, e sabendo disso, mas também percebem que palavras só estragariam aquele momento. As palavras trariam toda a fantasia que haviam criado naqueles segundos para a realidade e não seriam capazes de reproduzí-la, então eles simplesmente ficam ali, em silêncio, e descobrem que ele é a melhor descrição para o que sentiam, pois não existia palavra suficientemente forte ou bonita e esta nunca viria a existir.

Chuva

A chuva começa a bater na janela e aquela sensação de calma e de alívio vai tomando conta do seu espírito. Parece por alguns segundos que todos aqueles problemas se dissolveram na água e nunca mais aparecerão para importuná-lo. Ele fecha os olhos e respira fundo. Sobe aquele cheiro de terra molhada, sente aquele ar úmido e suave, era exatamente daquilo que precisava.
Sai pela porta e sente as primeiras gotas baterem contra o seu rosto, não consegue se conter e deita no chão, sentindo a água batendo por todo o seu corpo e lavando sua alma. Começa a sentir os ossos gelados, mas não se importa, a sensação de paz que aquela chuva lhe proporciona é impagável, insubstituível, imbatível. Naquele momento, sente que ninguém nunca vai conseguir lhe derrubar.
De repente, a chuva começa a diminuir, diminuir, e para. Ele volta para dentro do seu quarto, toma um banho quente e assim que cai na cama adormece. Agora sua insônia havia acabado. A chuva destruiu todos os seus problemas e por algumas horas fez da sua vida, a vida perfeita.

//we are broken - paramore

Encruzilhada

Ela finalmente deu de cara com uma encruzilhada. Tomar decisões nunca havia sido seu forte e lá estava ela, de cara com uma, que definiria pelo menos os próximos 3, 4 anos de sua vida. Agora não eram mais brinquedos, não eram mais namorados ou amiguinhos, agora era sua vida, seus sonhos. O que ela faria? Nada era certo, nenhum dos caminhos trazia garantias, os dois possuíam riscos gigantescos. Mas qual seria a melhor opção?
Ela se sentou, ficou observando o lugar onde a faixa em que caminhava se dividia em duas e percebeu que aquela era a perfeita imagem de como estava seu espírito no momento. Cada parte de si puxando para um lado. Parecia que seu corpo se rasgaria em dois, assim como o espírito já havia rasgado.
Queria fazer uma coisa só para si mesma, mas sabia que precisava pensar nos outros, que não era só ela que estava em jogo. Não conseguiu tomar decisão alguma e ficou sentada ali, diante da encruzilhada, sem saber o que fazer por um bom tempo.
Até que se refugiou, foi se esconder dentro de si mesma. E ali, não decidiu que caminho tomar, mas decidiu o que fazer para tomar essa decisão. Precisava de tempo, de calma, de silêncio. Quando juntasse todas as suas dúvidas, incertezas e possibilidades conversaria com quem as pudesse responder e só aí decidiria algo.
O grande problema, o que mais a preocupava, é que mesmo depois de tudo isso, o caminho que parecia mais sensato poderia se tornar um poço de areia movediça no final, e o outro, o que fosse cheio de pedras, poderia ser o jardim com que tanto sonhara. Mas o que fazer?
Concluiu por fim, que a única certeza que teria, por mais que pensasse era que precisava arriscar.