Momentos

Eis uma coisa que eu acabei percebendo durante esse ano, não existe tal coisa de ano melhor, ano-novo, vida nova, na real, o que existem são momentos, uns melhores, outros piores, mas não passam de momentos. O tal ano melhor ou pior é conseqüência direta da importância dada aos momentos ruins ou bons, a quais permaneceram na memória, porque, parando para pensar, todos os anos são cheios de choros e gargalhadas, o que muda é o como lidamos com eles.
Acho que posso dizer que o tal meu ano foi simplesmente um punhado de momentos bons e ruins, um punhado de gargalhadas com os amigos e outro punhado de lágrimas com uns poucos.
Aprendi muito, mais do que em toda a vida, diria. Fui contaminada por aquele vírus que te faz passar mal constantemente pensando no quão fudido está o nosso mundo e sentir aquela permanente sensação de insatisfação. Nas palavras de um professor que entrevistei durante um trabalho da faculdade, fui uma daquelas alunas que decidiu passar mal o resto da vida, mas com os olhos bem abertos para o seu redor.
A vida pessoal não foi mais fácil de suportar. Solidão, sensação de vazio que me preencheu durante 70% do tempo, mas que quando era eliminada, o era por aqueles tão falados amigos, e de um jeito que fazia com que, anulando todas as regras da matemática, 30% fosse mais, muito mais do que 70%.
O namoro, diria que foi difícil, mas gratificante, apaixonante e, acima de tudo, perfeito. Tudo bem, tiveram lá as suas brigas e as suas decepções, as lágrimas, os gritos tão lamentados depois, mas, se não fosse por cada um desses pequenos momentos, talvez não teria sido tão perfeito, porque, certamente, teria sido menos intenso, e, sinceramente, durante esse punhado de momentos, descobri que, acima de tudo, gosto de intensidade.
Em questão de atitudes próprias, diria que melhorei. Ainda preciso deixar de ser tão estúpida quando estou com raiva, e parar de perder a cabeça com as pessoas que amo, preciso deixar de ser tão preguiçosa e me esforçar mais, preciso ter mais atitude, de certa forma, mas isso não é promessa de ano-novo, é meta de vida.
A minha vida meio que se acertou sozinha nesse ano, e sou eternamente grata por isso. Mas pretendo ajeitá-la com as minhas próprias mãos dessa vez e de uma vez por todas.
Em uma palavra, talvez resumiria tudo em aprendizado, um aprendizado FARAÔNICO, do qual saí cheia de cicatrizes e de feridas, mas do qual não me arrependo por nem um segundo sequer.

Defeitos

E mudando um pouco o padrão, venho escrever em primeira pessoa, especialmente porque essas palavras são de tal importância para melhorar algumas coisas da minha vida e tão difíceis de se dizer em voz alta que seria desonesto e covarde colocá-las em bocas alheias.

Alguém me disse que o grande problema não é domar seus defeitos e sim descobrir onde eles se encontram, e foi daí que comecei a tentar descobrir a origem dos meus maiores defeitos e o resultado, como já se é de imaginar foi desastroso. Mas de fato consegui reunir alguns defeitos que definitivamente preciso melhorar e depois de muito pensar, acabei achando a origem de um deles, que talvez seja o mais problemático no momento, inclusive.
Nessa tal reflexão acabei constatando que sou nervosa e impulsiva demais, acabo descontando coisas nas pessoas erradas e as machucando com isso, descobri que sou absurdamente "mandona" e que às vezes acabo encarnando o papel de superior sem nem perceber, descobri muitas outras coisas, mas a principal, o tal do problema central é que eu sou muito fechada, mesmo que não pareça. Eu acabo não compartilhando meus medos e minhas preocupações, e às vezes nem minhas alegrias com os que são próximos, acabo guardando pra mim mesma e remoendo, o que eu acho que em certo ponto acarreta todos os problemas anteriores.
Agora sobre a origem, vai parecer meio estranho e sem sentido, alguns até acharão arrogante, mas alguns poucos que me conhecem vão perceber o quanto é significativo.
Começando do início, eu tenho uma tendência a prestar atenção a detalhes do comportamento das pessoas, e com isso, acabo percebendo com facilidade quando alguma coisa está errada, mas não é sexto sentido nem algo paranormal, é simples e pura observação. Acontece que por isso eu sempre pergunto se está tudo bem e sempre ofereço ajuda, na maioria das vezes, antes mesmo de o outro chegar a me dizer que tem alguma coisa errada, e daí vem o problema: eu acabo esperando isso dos outros.
Fico esperando e esperando que alguém perceba que tem algo de errado, mas obviamente, como ninguém é igual a ninguém, as pessoas não percebem, e não estou dizendo que seja por má vontade ou qualquer fator negativo, elas não percebem simplesmente por não prestarem atenção às mesmas coisas que eu, e de tanto esperar acabo guardando pra mim, porque, mesmo que inconscientemente me fica a impressão de que se ninguém perguntou é porque ninguém se importa, impressão essa que passa rápido, mas que não deveria nem existir.
Bom, isso fica como um "mil desculpas" à todos aqueles próximos o suficiente que acabaram, de um modo ou de outro, mesmo que sem perceber, sendo afetados por isso, e uma promessa de que vou melhorar.
E só para finalizar, apesar de doloroso, eu recomendo a ideia à todos: pensem de onde surgiram os seus defeitos... quem sabe não acaba facilitando as coisas?

Roller Coaster

Ela se sentia novamente uma criança, naquele primeira vez numa montanha-russa, cheia de sobressaltos e gritos de medo, mas também cheio de excitação e alegria. Era como se o tempo não existisse, era como se nada mais existisse, além dos dois. Como se o mundo tivesse parado por alguns dias e se submetido às suas vontades. Sem horários, sem compromissos, sem preocupações. Aquilo era tudo o que ela queria. Foi nesses três indescritíveis dias que ela descobriu porque tinha estado tão triste durante o ano, apesar de tudo ter funcionado. Faltava um único ingrediente, sem o qual nada daquilo fazia sentido, faltava o último toque de tempero. Naquele fim de semana ela percebeu que ele era o ingrediente que faltava, aquele que transformava sua vida normal e tranqüila na tal montanha-russa: cheia de incertezas e sobressaltos, extremamente excitante, e, acima de tudo, que definitivamente vale a pena.

Flying

E ela ouvia sempre as mesmas músicas, passava sempre pelos mesmos lugares, via sempre as mesmas pessoas e se sentia cada vez mais vazia. Não sabia mais como era a sensação de conhecer alguém e ter aquela primeira conversa, que determina a continuidade do relacionamento. Sua vida estava muito certa, as incertezas eram tão poucos que às vezes ela até chegava a falar de sua própria vida com um certo tom de tédio na voz. Queria coisas novas, queria experiências, queria tudo aquilo que devia estar vivendo, aquilo que sempre havia sonhado para si mesma. Queria fugir daquela rotina esmagadora. Ver outros lugares, conversar com outras pessoas, conhecer e aprender coisas novas. Sentia uma necessidade imensa de fazer diferente, fazer diferente do que tudo e todos já haviam feito na história da humanidade, e queria fazer imediatamente! Não agüentava mais esperar, esperar o dinheiro e a segurança, esperar a idade, esperar o momento. Para ela o momento era aquele e se este passasse nunca mais haveria outro. Queria sair correndo e fazer as maiores loucuras. Queria viver e parar com essa chatice com a qual estava convivendo. Tudo o que ela queria era voar, voar ao lado dele. Mas já não tinha mais certeza se ele um dia voaria ao lado dela.

Murphy realmente existiu!

Eles todos não foram capazes de prever todos os imprevistos da viagem de volta. Começou tranqüila, gotas de chuva batendo no vidro do carro, música para acalmar os ânimos, colos e cafunés. De repente, seu querido meio de transporte decide que não quer mais engatar, e eis que o sufoco começa. Em quinta eles conseguem chegar em um posto na beira da rodovia, e a solução mais óbvia é: chamamos o seguro e vamos até Campinas guinchados. O seguro atende o telefone, mas a resposta demora, eis que o segundo imprevisto ocorre, a apólice estava vencida. E agora? Decidem tentar a sorte e vão dirigindo até Campinas em quinta. Cada pedágio atravessado era um suspiro de alívio, até que finalmente eles chegam em Sumaré e um dos passageiros desce do carro. Ela deita no banco e dorme um sono pesado, mas não pesado o suficiente para sobreviver ao próximo daqueles imprevistos. Ela acorda com um "PAH", batendo a cabeça no cinto do namorado e levantando assutada com o motorista xingando. O que aconteceu? Bateram no carro! Ela olha para fora e três viaturas da polícia militar fecham um fox alguns metros à frente. Descem policiais armados e um deles manda seguir caminho, e eles o fazem. Já um pouco depois de toda essa confusão param no acostamento para ver o que havia acontecido. Um amassado na traseira e eis que o porta-malas com todos os pertences dentro não abre. Quem bateu no carro? Foi a viatura da polícia! Vamos ligar para a polícia e ver o que fazer então! Eles ligam e descobrem que a solução é voltar ao lugar do acidente, aquele com 12 policiais com arma em punho e decidem que o prejuízo talvez acabasse se tornando maior do que já era. Enfim chegam em casa, sãos e parcialmente salvos. No fim das contas, uma pancada no porta-malas acabou por desemperrá-lo e os pertences foram devidamente retornados. Mas eles com certeza não imaginavam, ao sair de Ribeirão Preto naquele domingo chuvoso, que no fim do dia acabariam parte de uma perseguição policial em plena rodovia Anhangüera. É, Murphy realmente existiu!

(história verídica, diga-se de passagem)

//Stockholm Syndrome - Muse

...


Ela se sentia em uma roda-gigante, dando voltas e voltas e no fim das contas, voltando sempre ao ponto de partida, aquele velho e desgastado ponto de partida. Sentia que às vezes (ou na maioria delas) era simplesmente neurótica demais. Mas nas poucas restantes pecava por falta de neurose. Ela fazia de tudo, até mais do que ela em teoria era capaz de fazer e mesmo assim as coisas não ficavam exatamente como deveriam ser. Às vezes ela desejava ter um robô-diário, igual aquele dos Jetsons que pudesse responder todas as suas perguntas e que de fato conseguisse evaporar seus medos, outras vezes ela tinha certeza absoluta que já o possuía.
O ânimo ia se esvaindo a cada dia que passava, até o dia em que ele voltava como um furacão, e ela fazia e acontecia, mas depois de um tempo, quando percebia que voltara a andar em círculos ele ia embora com o vento novamente.
Queria a fórmula da felicidade eterna, mesmo sabendo que tal coisa não existia. Aliás, queria simplesmente deixar de ser tão exigente, afinal, as coisas estavam quase perfeitas.
Ela queria ser muita coisa que não era, queria saber fazer milhares de outras que não sabia, e queria parecer com milhões de pessoas com as quais simplesmente não parecia e aquilo a consumia por inteiro. Ela se reconstruía eventualmente, e voltava a achar que era uma pessoa ímpar, até aquela velha sensação de roda-gigante voltar à tona.
No fim das contas percebeu que por mais que quisesse, algumas coisas simplesmente não iriam mudar. Ela nunca deixaria de ser a chata/implicante de sempre, nunca deixaria de ser neurótica e completamente sem sentido. Ela sempre seria aquela contradição humana, aquela pequena estranha.

Mundo Novo

Ela caiu de pára-quedas. Mal sabia por onde começar ou como começar, não entendia absolutamente nada sobre aquilo e todos os seus anos de leituras e estudo não a ajudariam naquele momento, não ali. As primeiras semanas foram difíceis, ela chegou a pensar que não serviria para aquilo, mas com o tempo isso mudou. Aos poucos os sorrisos a cativaram. Em poucas semanas já sentia falta daqueles seres pequeninos. Já distingüia choros de fome e de frio, de dor e de birra. Já se importava tanto a ponto de travar a coluna de preocupação. As brincadeiras ficaram cada vez mais divertidas e ela percebeu que apesar de cansativo, era um trabalho extremamente divertido. Onde mais imitaria gatos e sapos e poderia dançar e pular feito criança novamente sem ser julgada por isso? Onde mais encontraria um emprego no qual grande parte se resumia a brincar?
Descobriu por fim que não só agüentaria, como gostava daquilo. Brincar de achei e de o mestre mandou e ninar uma criança a faziam esquecer dos problemas por alguns instantes. Ela percebeu que tendo dois mundos distintos era capaz de se organizar. Quando em um, o outro era completamente esquecido, e vice-e-versa. E este mundo tão diferente e divertido, sempre a fazia sorrir. Nele ela finalmente tornou seu maior sonho realidade. Nele ela finalmente voltou a ser criança e a voar com sua imaginação.